
Por que as crianças imitam mais os amigos do que os pais?
A imitação é uma ferramenta bem comum no aprendizado humano. Desde os primeiros meses de vida, os bebês observam e reproduzem expressões faciais, gestos e sons dos adultos ao seu redor.
À medida que crescem, essa capacidade de imitar se expande para comportamentos mais complexos, possibilitando que as crianças aprendam mais sobre habilidades sociais, linguísticas e até mesmo motoras.
Nessa linha, podemos afirmar que nos primeiros anos de vida, os pais ou cuidadores são os principais modelos de comportamento para qualquer criança. (Que responsabilidade, não é mesmo?)
No entanto, conforme os pequenos entram na escola, os amigos e colegas de classe tornam-se figuras cada vez mais influentes.
E, essa mudança na preferência por modelos a serem seguidos, reflete o desenvolvimento da autonomia e os primeiros sinais da busca por uma identidade própria.
Contudo, quando os pais observam seus filhos reproduzindo comportamentos ou gestos dos amiguinhos em vez dos seus próprios, costumam sentir um misto de surpresa e frustração.
Afinal, o convívio familiar costuma ser muito mais longo e afetuoso do que aquele que se tem com os colegas da escola ou da vizinhança.
Mas por que isso acontece?
A resposta está na forma como se constrói a identidade infantil, na importância dos pares no âmbito social e nos mecanismos inconscientes de pertencimento.
As crianças imitam porque buscam por pertencimento: será mesmo?
Mesmo antes de dominar a linguagem, a criança demonstra sinais de que busca aceitação, carinho e aprovação.
Quando começa a vida escolar ou a frequentar ambientes com outras crianças, o pequeno passa a comparar comportamentos, formas de agir, preferências e até maneiras de brincar. E é nesse momento que desponta o impulso de pertencer a um grupo.
A imitação, nesse contexto, nada mais é que uma forma de aproximar-se do outro. Isso porque quando adota falas, gestos e gostos parecidos com os dos amigos, a criança sinaliza que quer fazer parte da "turma".
Mas, isso não significa que ela deixa de admirar os pais ou de valorizar a própria família, mas sim que está se exercitando na arte da convivência social e da construção da identidade coletiva.
Amigos são "iguais": uma diferença importante nessa referência
Pais, cuidadores e professores são, na maioria das vezes, figuras de autoridade, e por mais próximos e afetuosos que sejam, ocupam um lugar diferente do lugar dos amigos.
Enquanto os adultos representam limites, regras e proteção, os colegas da mesma idade representam igualdade.
Uma criança de seis anos, por exemplo, pode até admirar a forma como o pai se comporta no trânsito ou como a mãe se organiza para trabalhar e cuidar da casa, mas dificilmente irá tentar imitar esses comportamentos no dia a dia.
Já se um colega da escola canta uma música em voz alta, come o lanche de um jeito diferente ou usa uma roupa estilosa, é bem mais provável que essa criança queira repetir esse comportamento.
A adolescência intensifica esse padrão
Se na infância a imitação entre amigos já é comum, na adolescência esse comportamento se torna ainda mais evidente.
A forma como o grupo de amigos fala, se veste, ouve músicas e usa as redes sociais passa a ditar, em grande parte, o comportamento desse jovem indivíduo que você está tentando educar.
Entretanto, os adolescentes costumam experimentar várias versões de si mesmos com base nas influências de grupo, em uma tentativa de descobrir quem realmente são.
Muitas vezes fazem isso de forma quase inconsciente, mudando conforme a faixa etária avança. E, embora esse movimento possa ser desconfortável para os pais, é totalmente esperado.
Mas, vale ressaltar que o distanciamento gradual da família não significa necessariamente rejeição, mas sim uma necessidade de experimentar na prática como funciona a autonomia.
Durante esses experimentos, os amigos são como um espelho social, em que o adolescente testa comportamentos e observa as reações alheias, reconfigurando seu próprio senso de identidade.
As crianças imitam como uma forma de aprender
A neurociência já confirmou que temos neurônios espelho, responsáveis por ativar em nós sensações semelhantes às que observamos nos outros.
Ou seja, ao ver um amigo rindo, é comum sentir vontade de rir também; ao observar um colega construindo algo, surge a vontade de tentar igual.
No caso das crianças, esses neurônios estão em plena atividade, tornando a imitação um dos principais mecanismos de aprendizagem.
Portanto, o fato de uma criança copiar um amigo pode significar que ela está tentando entender como algo funciona, ou como se relacionar em determinada situação.
E, quanto mais parecido o outro for com ela - em sua percepção pessoal - mais sentido fará imitá-lo. Isso explica por que os pais, mesmo sendo modelos mais constantes, não são sempre os mais copiados.
Autoestima e aceitação
O desejo de se sentir aceito é um dos mais legítimos, e atravessa toda a infância e juventude.
Por isso, em ambientes onde a criança sofre rejeição, bullying ou é constantemente comparada negativamente aos outros, ela poderá buscar de forma ainda mais ferrenha alinhar-se aos amigos para evitar novas situações de exclusão.
É comum, por exemplo, que uma criança passe a rejeitar desenhos, comidas ou brincadeiras que antes amava só porque percebeu que isso é "coisa de bebê" entre os colegas.
Esse tipo de adaptação não deve ser automaticamente vista como negativa; em muitos casos, é parte do ajuste à convivência social.
Mas quando ocorre de forma intensa e rápida, pode sinalizar uma autoestima fragilizada e um desejo exagerado de ser aceito a qualquer custo.
Como os pais podem lidar com isso
Aceitar que os filhos vão, em certos momentos, se inspirar mais nos amigos do que na família é o primeiro passo.
Entretanto, isso não invalida o papel essencial que os pais têm como referência emocional, moral e afetiva. Aliás, são os pais quem dão base para que a criança consiga escolher com mais segurança quais influências vale a pena seguir.
Quando os pais criticam de forma agressiva os amigos ou os comportamentos copiados, a criança tende a se afastar ainda mais e a esconder o que está vivendo.
Em vez disso, é interessante perguntar com curiosidade e respeito sobre os gostos atuais, tentando entender o que aqueles colegas representam para a criança.
Pais que mantêm uma relação de confiança com os filhos conseguem orientá-los mesmo quando não são a principal referência naquele momento. O importante é estar presente, mesmo que nos bastidores, como um porto seguro.
Quando se preocupar com as imitações
Existem alguns sinais de alerta que indicam que a influência está sendo negativa ou excessiva quando ocorrem:
- Mudanças muito bruscas de comportamento ou personalidade;
- Atitudes agressivas, desrespeitosas ou autodestrutivas;
- Isolamento da família e dos antigos amigos;
- Rejeição total às próprias preferências anteriores.
Nesses casos, pode ser necessário conversar com a escola, buscar apoio de profissionais como psicólogos infantis ou mesmo pensar em um ambiente mais seguro emocionalmente para que a criança volte a se sentir aceita como é.
A influência dos amigos é temporária, mas essencial
Ao longo da vida, todos passamos por fases em que certas influências ganham mais peso. Mas, na infância e adolescência, os amigos têm um papel maior nesse processo de construção de identidade.
Cabe aos adultos acolher essa busca com certa empatia, dando suporte, orientação e um olhar respeitoso diante das mudanças que vão surgir - mesmo que não sejam tão agradáveis para os olhos dos pais.
Afinal, com esse apoio, seu filho não apenas passará por essa etapa do crescimento de maneira segura, mas também levará para a vida adulta a capacidade de discernir quais influências merecem ser mantidas e quais podem ser deixadas para trás.

