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Artigo: Meu filho está viciado em telas: é possível reverter?

Meu filho está viciado em telas: é possível reverter?

Meu filho está viciado em telas: é possível reverter?

Hoje em dia, nós já entendemos que o termo vício em telas não é um exagero de pais preocupados ou avessos às novas tecnologias.

Isso porque a ciência já comprovou que a exposição contínua a estímulos digitais de alta velocidade realmente altera a forma como os neurônios se comunicam.

Nesse contexto, a dificuldade que o seu filho tem de largar o celular é uma resposta biológica a um sistema de design chamado recompensa variável.

Balizados por esse design, os desenvolvedores de aplicativos criam interfaces que liberam doses de dopamina no cérebro em intervalos imprevisíveis - que é exatamente o mesmo mecanismo que mantém um adulto jogando em um cassino.

Assim, a criança fica presa no dispositivo porque o cérebro dela está sempre esperando o próximo vídeo, o próximo nível no jogo ou a próxima curtida no conteúdo postado - que pode ocorrer a qualquer momento.

Como o sistema de freio do cérebro - o córtex pré-frontal - só termina de se formar por volta dos 25 anos, exigir que uma criança tenha bom senso e pare de usar a tela por vontade própria é pedir algo que ela ainda não tem estrutura física para fazer.

O estado de anestesia que o vício em telas traz

Um dos pontos que precisamos abordar é a perda da interocepção que estar focado em uma tela gera. A palavra interocepção é estranha, mas identifica a capacidade da criança sentir os sinais do próprio corpo.

Quando o seu filho entra no transe da tela, o cérebro dele foca 100% no estímulo visual e auditivo externo, e meio que desliga a comunicação com o interno.

É por isso que as crianças viciadas em telas costumam segurar a vontade de ir ao banheiro até o último segundo, pois não percebem que estão com sede ou perdem a noção de saciedade, comendo até sem sentir o gosto da comida.

Elas estão, literalmente, anestesiadas pelo digital.

Portanto, o primeiro passo para reverter esse quadro está relacionado a buscar atividades que obriguem o cérebro à voltar para casa, com brincadeiras que envolvam equilíbrio, texturas e algum esforço físico.

A fadiga de decisão

Você já reparou que um dos piores momentos do dia com seu filho é quando você pede para desligar o jogo?

Isso porque já é esperada aquela crise de choro ou uma explosão de raiva, não é mesmo? Porém, isso não é necessariamente uma resposta pirracenta.

Na verdade, é uma espécie de colapso do córtex pré-frontal - aquele ainda está em formação, lembra?

Isso acontece, porque cada escolha que a criança faz dentro de um jogo — qual caminho seguir, qual botão apertar — consome paulatinamente uma quantidade de energia do cérebro.

Depois de horas nessa dinâmica com algum aplicativo, a reserva de energia que a criança usaria para ter autocontrole e aceitar um não está zerada, fazendo com que ela entre em um estado de fadiga de decisão.

Isso ocorre devido ao cérebro estar exausto, mesmo que o corpo esteja parado. Quando entendemos esse mecanismo, é possível usá-lo a nosso favor, criando as chamadas pontes de transição.

Com elas, trazemos a atenção da criança para o universo físico aos poucos, como por exemplo: conversando sobre o que ela está vendo, o que está concluindo no jogo - antes de apertar o botão de desligar definitivamente por uma ordem abrupta.

A visão de túnel: apenas um dos problemas gerados pelo vício em telas

Existe um fenômeno chamado atrofia da visão periférica, que ocorre quando a criança passa muito tempo focada em um ponto fixo a 30 centímetros do rosto, e o cérebro dela começa a ignorar o que acontece ao redor.

Atualmente, nós já vemos reflexos disso na coordenação motora e até na segurança física, com crianças que tropeçam mais e têm dificuldade de perceber movimentos laterais.

Além disso, a falta de contato visual olho no olho prejudica a leitura de expressões faciais, que é algo muito importante para o convívio social em diferentes contextos.

Ademais, a empatia é despertada inicialmente por meio da nossa capacidade de avaliar os micro-movimentos no rosto do outro, entendendo o que ele está sentindo ou desejando comunicar com uma linguagem não verbal.

Por isso, se o seu filho passa a maior parte do tempo só olhando para personagens digitais, ele está deixando de treinar o músculo social mais importante da vida. É necessário intervir o quanto antes.

A melhor estratégia para diminuir o interesse por telas

Na década atual, tudo é feito cada vez mais para ter baixa fricção: ser fácil, ser rápido, não exigir esforço.

Dessa forma, para reverter o vício em telas, você precisa introduzir na rotina da criança atividades de alta fricção.

Por exemplo, brincar com massinha exige força nas mãos; montar um Lego exige paciência; desenhar exige coordenação.

E acreditem, essas atividades que fazíamos facilmente em nossa infância - outra geração - são difíceis para um cérebro viciado em ter o que quer num estalar de dedos.

Por isso, se prepare porque a criança vai reclamar de tédio quando você propor uma brincadeira, digamos, mais lenta e manual.

Contudo, insista, porque é apenas quando o cérebro para de receber estímulos prontos que ele é forçado a criar os próprios pensamentos, redescobrindo a própria imaginação.

O papel do exemplo

Nós não podemos esquecer que as crianças possuem neurônios-espelho, que são células cerebrais feitas para imitar o comportamento dos adultos ao redor.

Se quando seu filho acorda, o primeiro gesto que ele observa, dia após dia, é você checando o celular, ele entende, em um nível subconsciente, que aquele objeto é a coisa mais importante da sua vida.

Sendo assim, a reversão do vício infantil passa, invariavelmente, por uma revisão do nosso próprio comportamento. Nessa linha, é interessante criar zonas de silêncio digital em casa — lugares onde o Wi-Fi não entra e onde o celular não é bem-vindo. Isso mostrará para a criança, na prática, que a vida real tem prioridade e que os pais também são capazes de desconectar para estar 100% presentes com seus filhos.

4 passos para começar um desmame digital

Troque quantidade por qualidade: não foque primeiro em diminuir as horas, foque em aumentar a complexidade do que ela faz na tela. Jogos de criação são melhores que vídeos passivos.

Luz natural: priorize que seu filho tenha contato com a luz do sol logo pela manhã. Isso auxiliará na regilação do ciclo circadiano e na produção de melatonina à noite, que é prejudicada pela luz azul das telas. Tente incluir atividades mais lúdicas no período da tarde para a noite.

Substitutos para a dopamina rápida: pense em áudio-livros ou música usando algum dispositivo, pois essas alternativas estimulam a imaginação sem o componente visual hipnótico das telas.

Traga a criança para a solução: explique como o cérebro dela funciona, pois crianças adoram entender sobre superpoderes e mistérios biológicos. Assim, quando ela entende que o jogo está tentando enganar o cérebro dela, ela pode se sentir motivada a retomar o controle. Conhecimento e consciência são aliados importantes para reverter hábitos nocivos em qualquer idade.

É possível a reversão total do vício em telas?

A resposta é um sim esperançoso.

O cérebro humano é desenhado para a conexão que temos na vida real, no ambiente físico.

Desse modo, assim que o excesso de estímulo artificial é retirado, os receptores de dopamina começam a se recalibrar, sobretudo em crianças que ainda estão se desenvolvendo.

Com isso, é bem possível que em poucas semanas, você note que o seu filho passou a se interessar pelas formigas no jardim, pelas cores de um desenho e, principalmente, por uma conversa com você.

O caminho não é fácil, mas o prêmio é a devolução da infância para quem mais importa.

Fontes e referências:

Para garantir que nós estamos falando com base em dados reais e confirmados, aqui estão as fontes de pesquisa para este artigo:

  • Center for Humane Technology - Ledger of Harms (2025): Análise profunda sobre como o design persuasivo afeta o desenvolvimento cognitivo infantil. humanetech.com/ledger-of-harms
  • The Lancet Child & Adolescent Health (2026): Estudo sobre o impacto da luz azul e do sedentarismo digital no desenvolvimento da substância branca cerebral. thelancet.com/child-adolescent
  • JAMA Pediatrics - Screen Time and Early Childhood Development (2025): Pesquisa longitudinal sobre o atraso de marcos de desenvolvimento em crianças expostas a telas precocemente. jamanetwork.com/journals/jamapediatrics
  • Gartner Research - Digital Behavior Trends in 2026: Dados sobre o consumo de mídia e a evolução das interfaces de economia da atenção. gartner.com/en/healthcare
  • Stanford University - Neurobiology of Addiction and Digital Media: Relatório técnico sobre a saturação de receptores de dopamina em menores de 12 anos. stanford.edu/dept/psychology

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