A criança e o adolescente estão o tempo todo tentando descobrir quem são e como se encaixam no mundo. Décadas atrás, os modelos eram cantores de bandas ou atores de TV, que ficavam distantes, restritos e protegidos por uma tela de inacessibilidade.
Hoje, os influenciadores digitais estão literalmente no bolso dos jovens, disponíveis 24 horas por dia. O nível de intimidade parassocial que se cria é gigantesco, pois o jovem passa a ver aquele criador de conteúdo como um amigo próximo que dita o que é legal e como se portar. Por isso, imitar os trejeitos da internet acaba sendo a ferramenta mais rápida que eles encontram para tentar reproduzir aquele sucesso e aquela confiança na própria vida.
Ademais, essa necessidade de cópia é intensificada pelo sistema de recompensas das plataformas. A criança vê que o youtuber recebe milhões de likes e comentários ao agir de certa forma, e o cérebro dela entende que, para ser amada e validada, ela também poderia agir daquele jeito. Contudo, é preciso ter cuidado. A identidade real, ainda em formação e cheia de inseguranças, acaba sendo soterrada por um personagem que parece muito mais seguro e popular - mas que continua sendo só um personagem.
Por que o cérebro do seu filho copia o que vê no TikTok?
Para entender por que é tão difícil desligar o tablet, os cuidadores precisam olhar para os neurônios-espelho. Essa rede neural é a responsável pela nossa capacidade de aprendizado por imitação. Nós somos equipados biologicamente para copiar o comportamento das pessoas ao nosso redor, como forma de sermos aceitos pelo grupo e sobreviver socialmente.
Quando o convívio social do jovem se concentra quase todo dentro do YouTube ou do TikTok, o cérebro dele registra que aquele é o ambiente padrão, a tribo à qual ele pertence. Consequentemente, ele espelha o jeito de quem domina aquele espaço. A fala alta, os cortes bruscos no raciocínio e as reações exageradas típicas dos vídeos passam a ser o vocabulário emocional da criança no mundo real.
Além disso, temos a questão da plasticidade cerebral. O cérebro infantil e adolescente é como uma esponja. Desse modo, se essa “esponja” é bombardeada por conteúdos de 15 segundos com edições frenéticas, ela começa a tentar processar a realidade nessa mesma velocidade.

Onde termina o personagem da internet e começa o seu filho?
O grande problema começa quando a linha entre a diversão e a vida real desaparece. Atuar como um influenciador na mesa de jantar impede que a criança desenvolva a sua própria voz. Ela acaba substituindo sentimentos genuínos por frases prontas, apenas porque sabe que aquilo gera reação, exatamente como acontece com os algoritmos.
Com o tempo, a criança deixa de interpretar o que sente de verdade para saber apenas como deve performar aquele sentimento. A longo prazo, isso pode dificultar a criação de vínculos verdadeiros, já que a vulnerabilidade é trocada por uma máscara de entretenimento constante. Além disso, o formato dos vídeos curtos exige uma energia frenética que pode gerar um estado de agitação e ansiedade constantes.
Como lidar com a influência das redes sociais no comportamento infantil
Bater de frente e proibir o celular costuma gerar revolta. A abordagem precisa ser estratégica e acolhedora, ajudando o filho a desenvolver senso crítico sobre o que consome.
- Evite o deboche direto: Rir do jeito que a criança fala fere a autoestima. O ideal é pontuar: "Filho, eu adoro conversar com você, mas gosto da sua voz de verdade".
- Corte o excesso pela raiz: Aplique limites de tempo e retire aparelhos do quarto à noite. O equilíbrio é a chave.
- Mostre o truque por trás da câmera: Explique que o comportamento do youtuber é um personagem criado para ganhar dinheiro. Mostre vídeos de erros de gravação e bastidores.

3 estratégias para reduzir a influência das redes sociais
- Incentive hobbies manuais e físicos: Esportes, música ou culinária exigem foco e paciência — coisas que o mundo digital esconde com edições.
- Desconexão total: Crie regras para a família, como refeições sem telas. Seja o exemplo.
- Estimule uma conversa reflexiva: Pergunte o que o jovem acha de determinado vídeo, levando o assunto para além da diversão para exercitar o pensamento crítico.
A importância de preservar a identidade onde tudo é digital
Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de garantir que ela não atropele o desenvolvimento saudável da personalidade. O objetivo final é criar jovens seguros de quem são, capazes de usar a internet sem serem usados por ela.
Fontes e referências para este artigo:
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP): Manual de Orientação Menos Telas, Mais Saúde
- Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br): Pesquisa TIC Kids Online Brasil
- Ministério da Saúde (Brasil): Guia de Saúde Mental na Infância e Adolescência


