Artigo: A forma inspiradora de ensinar do Método Reggio Emilia

A forma inspiradora de ensinar do Método Reggio Emilia
Se nós pararmos para observar em grande parte das escolas, o cenário ainda é muito parecido com o de décadas atrás. Crianças sentadas, o professor como o único possuidor do saber e um conjunto de regras que precisam ser cumpridas.
Mas existe um movimento, que nasceu em uma pequena cidade na Itália logo após a Segunda Guerra Mundial, que virou essa lógica de cabeça para baixo. Estamos falando do método Reggio Emilia.
Trata-se de uma filosofia de vida e de respeito à infância, onde não se tenta moldar a criança para que ela se encaixe no mundo dos adultos. Pelo contrário, ela tenta preparar o mundo para ouvir o que a criança tem a dizer.
Se você já sentiu que o sistema tradicional de ensino apaga o brilho e a curiosidade natural do seu filho, entender como essa abordagem funciona vai ser um verdadeiro respiro para você.
Onde o Método Reggio Emilia começou?
Nós precisamos entender o contexto para sentir a força do método.
O termo Reggio Emilia é o nome de uma cidade italiana que, após ser devastada pela guerra, decidiu que a melhor forma de reconstruir a sociedade era investindo pesado na educação dos seus pequenos.
Com isso, as próprias famílias ajudaram a erguer as paredes das primeiras escolas. Loris Malaguzzi, o pedagogo que liderou esse movimento, acreditava que a educação deveria ser baseada na escuta e na colaboração.
Para ele, a escola não deveria ser um lugar apenas de instrução, mas sim um lugar de convivência, pesquisa e descoberta.
Aquela semente cresceu e hoje o método é referência mundial, inspirando professores e pais que buscam algo mais humanizado para educar as crianças.
A criança protagonizando sua própria história
O pilar central do Reggio Emilia é a imagem da criança, de modo que não vemos os pequenos como uma folha em branco que precisa ser preenchida por nós.
A escolha é vermos a criança como alguém forte, capaz, rico em recursos e, acima de tudo, protagonista do seu próprio aprendizado.
Isso significa que, em uma escola que segue essa inspiração, não é o professor quem decide sozinho o que vai ser estudado na terça-feira às dez da manhã. Nesse contexto, o interesse parte da criança.
Se um grupo de pequenos descobre uma fila de formigas no jardim e fica fascinado por aquilo, as formigas viram o projeto da semana.
Assim, eles vão desenhar as formigas, observar como elas se movem, pesquisar o que comem e criar histórias sobre elas. Desse modo, o aprendizado acontece porque há desejo e curiosidade real, e não porque alguém impôs um tema.
As cem linguagens da criança de Loris Malaguzzi
Esta é talvez a ideia mais famosa e emocionante de Malaguzzi, porque ele escreveu um poema lindo dizendo que a criança é feita de cem. Cem línguas, cem mãos, cem pensamentos, cem formas de pensar, de brincar e de falar.
Mas, infelizmente, o sistema tradicional rouba noventa e nove dessas linguagens, pois a escola comum foca quase exclusivamente na fala e na escrita — as linguagens lógicas.
Já no Reggio Emilia é possível explorar todas as outras, como a pintura, a escultura, o teatro, o movimento, a música, o silêncio e o contato com a natureza.
Por isso, nas escolas que se balizam pelo método, existe uma figura muito especial chamada atelierista e um espaço exclusivo chamado ateliê.
O ateliê é o laboratório onde a criança usa diversos materiais — argila, luz, sombra, arames, tintas, elementos da natureza — para dar forma aos seus pensamentos.
Dessa forma, é através das “cem linguagens” que a criança entende o mundo e se expressa para ele.
O ambiente do Reggio Emilia é parte da educação
Nós sabemos o quanto o espaço onde estamos influencia o nosso humor e a nossa criatividade.
Em Reggio Emilia, o ambiente é levado tão a sério que é chamado de o terceiro educador — os outros dois seriam os professores e os colegas.
Diferente das salas de aula coloridas demais e cheias de cartazes prontos, os espaços em Reggio são esteticamente cuidadosos, iluminados e cheios de transparências, pois o objetivo é que o ambiente seja acolhedor e instigante.
- Transparência: uso de vidros e espelhos para que a criança veja o mundo e a si mesma de diferentes ângulos.
- Natureza: elementos naturais estão sempre presentes dentro da sala — pedras, folhas, sementes, gravetos. Esses objetos não são apenas itens de decoração, são ferramentas de pesquisa.
- Organização: tudo é colocado ao alcance da mão da criança, incentivando a autonomia.
Se ela quer criar algo, ela não precisa pedir permissão para pegar o papel, porque o material está lá, disponível e convidativo.
A pedagogia do ouvir e o papel do adulto
Nesta abordagem, o papel do professor — e o nosso papel como pais, quando trazemos isso para casa — muda bastante.
Nós deixamos de ser os donos da verdade para nos tornarmos observadores e parceiros de pesquisa dos nossos filhos.
Isso chama-se pedagogia da escuta, que é o ato de silenciar nossas certezas adultas para observar o que a criança está realmente tentando descobrir.
O professor documenta tudo: anota falas, tira fotos, filma processos. Essa documentação não serve para dar nota, mas para tornar o aprendizado visível.
Quando mostramos à criança o que ela pensou ou fez dias antes, estamos dizendo: o que você pensa e sente é importante.
Esse reconhecimento constrói uma autoestima que nenhuma medalha de “melhor aluno” consegue dar.
Como trazer o espírito de Reggio Emilia para casa?
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Valorize o processo, não apenas o resultado
Pergunte como seu filho pensou, o que tentou fazer, quais ideias teve. -
Ofereça materiais não estruturados
Caixas, tecidos, elementos da natureza e potes estimulam a criatividade muito mais do que brinquedos prontos. -
Prepare o ambiente para a autonomia
Livros, materiais e espaços acessíveis fazem toda a diferença. -
Ouça de verdade
Observe como ele brinca, o que investiga, o que sente. A escuta é o maior combustível do desenvolvimento.
Olhando a infância com outros olhos
O método Reggio Emilia nos ensina que a infância não é uma fase de espera para a vida adulta. A criança já é um cidadão pleno hoje.
Para isso, basta respeitar o tempo, as linguagens e a forma como elas enxergam o mundo.
No final das contas, não estamos apenas ensinando nossos filhos — estamos aprendendo a ser humanos melhores com eles.
